- Minha filha,
os tempos estão difíceis. Eu estou fazendo de tudo para conseguir algum
dinheiro e fazer esta mesa voltar a estar cheia de comida.
Eu olhei mais
uma vez para o nosso almoço. Não sei se minha fome era suficiente para comer
aquilo, mas certamente seria mais tarde. Meu pai tinha um sorriso amarelo no
rosto, ele estava tentando de verdade melhorar aquela situação. Já havia
vendido seu carro, sua moto, até meu computador. Mas as dívidas pareciam que
não acabavam nunca.
- Estou indo
pro meu quarto, papai. – Passei por ele e ganhei um beijo.
Meu quarto não
era mais o mesmo. Não tinha mais meu som, minha televisão. A única coisa que
ainda me deixava alegre em casa era minha câmera fotográfica. Sempre foi minha
maior paixão fotografar. Peguei-a em cima da cama e me apressei pelo corredor
para fugir daquela realidade. Foi quando ouvi meu pai ao telefone.
- Eu preciso
de mais tempo. – Ele colocou a mão na cabeça. - Nem falta tanto dinheiro assim.
É pouca coisa. – Pausa dramática para mim. – Ok. Amanhã te entrego o dinheiro.
Meu pai
desligou o telefone e sentou no sofá. Eu me escondi perto da porta para que não
me visse. O que vi a seguir apertou meu coração. Meu pai chorou. Ele fechou os
olhos e as lágrimas saíram rápido.
Não consegui
ficar para ver o seu sofrimento e corri sem direção pela rua. As pessoas
olhavam para mim em um misto de medo e dó. Uma sensação quase sufocante me
abraçou e fui obrigada a parar para respirar. Foi aí que tive a ideia que me
deixou de joelhos no chão. Meu pai precisava de mim e ele teria minha ajuda.
Tirei a câmera
da bolsa e comecei a fotografar as pessoas. Seus olhares penosos me renderam
fotos maravilhosas. Não achei suficiente e continuei caminhando. Fotografei as
estradas, as paisagens, os animais. Tudo que me chamou a atenção, eu registrei.
Depois voltei para casa, mas antes, passei na vizinha e descarreguei todas as
fotos em seu computador. Era uma senhora simpática que adora meu pai.
- A senhora,
por favor, diga a todos que usarem seu computador que não apaguem o álbum com
nome As Últimas Fotos, certo? – Ela sorriu solidária e me abraçou.
Naquele dia eu
vi meu pai chorar mais uma vez. Foi quando entreguei a ele o meu equipamento de
fotografia completo e disse que vendesse para pagar a última dívida. Ele
relutou em aceitar, mas acabou cedendo e me agradecendo.
Dois dias
depois, meu aniversário. Que irônico. No lugar de ganhar presente, já que não tínhamos
dinheiro para isso, eu acabei me desfazendo de algo. Levantei da cama para
começar o dia e fiz questão de descer com o pé esquerdo. Essa hora papai não
estaria em casa e não tinha nada para fazer. Tomei meu café pensando em como
seria bom ter uma câmera para fotografar minha cara de depressão nesse momento.
A deprê só aumentou por isso. Seria uma foto famosa.
- Filha, corre
aqui. Cheguei. – Papai gritou lá do jardim.
Fui ver o que
ele queria e o encontrei com um pacote na mão.
- Pai, eu não
acredito. Não precisava. Não temos dinheiro. – Peguei o pacote.
- Abre. – Ele sorria
de orelha a orelha.
Estranhei todo
o seu contentamento, mas abri mesmo assim. Enquanto eu abria, meu coração
acelerava. Meus dedos tremiam. Ao final, meu rosto já estava banhado em
lágrimas de alegria.
- Feliz
aniversário. – Papai me disse.
Sorrindo, eu o
abracei. Antes de correr com a minha máquina fotográfica, sim, a minha mesmo.
Aquela que tinha dado para ele vender e que agora estava em minhas mãos
novamente.
- Foi o melhor
presente de aniversário que ganhei na minha vida, pai.
- Mas já era
seu.
- Não importa.
Eu estou mais feliz agora.
Raíza Andrade.



