quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um sonho que sonhei.


- Minha filha, os tempos estão difíceis. Eu estou fazendo de tudo para conseguir algum dinheiro e fazer esta mesa voltar a estar cheia de comida.

Eu olhei mais uma vez para o nosso almoço. Não sei se minha fome era suficiente para comer aquilo, mas certamente seria mais tarde. Meu pai tinha um sorriso amarelo no rosto, ele estava tentando de verdade melhorar aquela situação. Já havia vendido seu carro, sua moto, até meu computador. Mas as dívidas pareciam que não acabavam nunca.

- Estou indo pro meu quarto, papai. – Passei por ele e ganhei um beijo.

Meu quarto não era mais o mesmo. Não tinha mais meu som, minha televisão. A única coisa que ainda me deixava alegre em casa era minha câmera fotográfica. Sempre foi minha maior paixão fotografar. Peguei-a em cima da cama e me apressei pelo corredor para fugir daquela realidade. Foi quando ouvi meu pai ao telefone.

- Eu preciso de mais tempo. – Ele colocou a mão na cabeça. - Nem falta tanto dinheiro assim. É pouca coisa. – Pausa dramática para mim. – Ok. Amanhã te entrego o dinheiro.

Meu pai desligou o telefone e sentou no sofá. Eu me escondi perto da porta para que não me visse. O que vi a seguir apertou meu coração. Meu pai chorou. Ele fechou os olhos e as lágrimas saíram rápido. 

Não consegui ficar para ver o seu sofrimento e corri sem direção pela rua. As pessoas olhavam para mim em um misto de medo e dó. Uma sensação quase sufocante me abraçou e fui obrigada a parar para respirar. Foi aí que tive a ideia que me deixou de joelhos no chão. Meu pai precisava de mim e ele teria minha ajuda.

Tirei a câmera da bolsa e comecei a fotografar as pessoas. Seus olhares penosos me renderam fotos maravilhosas. Não achei suficiente e continuei caminhando. Fotografei as estradas, as paisagens, os animais. Tudo que me chamou a atenção, eu registrei. Depois voltei para casa, mas antes, passei na vizinha e descarreguei todas as fotos em seu computador. Era uma senhora simpática que adora meu pai.

- A senhora, por favor, diga a todos que usarem seu computador que não apaguem o álbum com nome As Últimas Fotos, certo? – Ela sorriu solidária e me abraçou.

Naquele dia eu vi meu pai chorar mais uma vez. Foi quando entreguei a ele o meu equipamento de fotografia completo e disse que vendesse para pagar a última dívida. Ele relutou em aceitar, mas acabou cedendo e me agradecendo.

Dois dias depois, meu aniversário. Que irônico. No lugar de ganhar presente, já que não tínhamos dinheiro para isso, eu acabei me desfazendo de algo. Levantei da cama para começar o dia e fiz questão de descer com o pé esquerdo. Essa hora papai não estaria em casa e não tinha nada para fazer. Tomei meu café pensando em como seria bom ter uma câmera para fotografar minha cara de depressão nesse momento. A deprê só aumentou por isso. Seria uma foto famosa.

- Filha, corre aqui. Cheguei. – Papai gritou lá do jardim.

Fui ver o que ele queria e o encontrei com um pacote na mão.

- Pai, eu não acredito. Não precisava. Não temos dinheiro. – Peguei o pacote.

- Abre. – Ele sorria de orelha a orelha.

Estranhei todo o seu contentamento, mas abri mesmo assim. Enquanto eu abria, meu coração acelerava. Meus dedos tremiam. Ao final, meu rosto já estava banhado em lágrimas de alegria.

- Feliz aniversário. – Papai me disse.

Sorrindo, eu o abracei. Antes de correr com a minha máquina fotográfica, sim, a minha mesmo. Aquela que tinha dado para ele vender e que agora estava em minhas mãos novamente.

- Foi o melhor presente de aniversário que ganhei na minha vida, pai.

- Mas já era seu.

- Não importa. Eu estou mais feliz agora.

Raíza Andrade.

domingo, 13 de maio de 2012

Luz - Parte II


            - Salve-se quem puder. – Gritou um homem ao longe.
                 
            - Corram, corram! – Completaram outras pessoas ao seu redor.

          Ela não moveu um músculo. Muita gente corria para o outro lado e nada fazia de verdade. Apenas dava pra se observar o egoísmo alheio. A vontade de se salvar superava o amor ao próximo. Ela, de onde estava, conseguiu ver pessoas empurrando outras, morro abaixo, só para a garantia de sua própria segurança. Ela viu casais se separarem por ser impossível um e outro escaparem juntos. Ela sentiu dor, tanto amor se dissipando.

Mas algum tempo depois, algo inesperado aconteceu. Ela observou uma mulher correndo na direção contrária. “Para onde vai essa daí?”, pensou em perguntar, depois achou que era melhor descobrir sozinha e seguiu a moça. Quanto mais perigoso ficava, mais desesperada a mulher estava perto de tal perigo. Já tinha visto muito marmanjo grande com medo de tudo, a coragem da mulher chamou mesmo sua atenção.

A doida, como resolveu chamá-la, parecia realmente não ter noção de seus riscos. Era a hora de intervir e leva-la dali. Quando se preparava para arrastar a mulher de lá de dentro, ouviu algo baixinho. E, como se não pudesse ficar mais difícil de entender, a mulher sorriu. Estava ali, em meio ao fogo, em meio ao desabamento. Em uma tragédia. Mas sorriu e seus olhos brilharam. A cena foi tão emocionante que quase não percebeu quando a mulher correu em direção ao som. Quando deu por si e foi atrás, já estava segurando um pequeno pacote. Ao olhar de perto não acreditou no que viu. A doida olhou para o que segurava e disse apenas:

- Está tudo bem agora. A mamãe está aqui com você.

Não soube ao certo explicar se a mulher saiu de lá com a criança ou se ficou lá dentro. O que não saia da sua cabeça era o sorriso sincero de felicidade no meio de tanta coisa ruim acontecendo. A doida teve toda a chance do mundo de se salvar e voltou. Voltou porque sua vida não teria salvação sem sua filha. Buscou em todo seu histórico de amores entre seres humanos e constatou, pela primeira vez, que o mundo não era tão mesquinho. Que nele tinham amores de tamanhos indefiníveis. E os maiores que pode observar, eram exatamente como o que vira naquele dia. De uma mãe para um filho.

Mães são criaturas loucas. Loucas de amor.

Eu te amo, mãe. Obrigada por tudo. Obrigada por estar sempre me salvando mesmo que isso custe a sua própria salvação. E obrigada por simplesmente existir.

Raíza Andrade