Era uma vez uma criança. Amada era o seu nome.
Morava em um castelo luxuoso de paredes grandes feitas com pedras esculpidas a
mão. Ficava no seu quarto, na cama rosa de princesa. Olhava o teto e admirava o
lustre brilhante que se debruçava em cima de sua cabeça. Tentava a todo custo tocá-lo,
mas era em vão. Ficava muito no alto. Claro que sonhava. Qual criança não
sonha? Queria casar-se com um príncipe e viver feliz para sempre. Queria cuidar
dos animais e ajudar os doentes. Levar alegria ao povo do seu reino. Chegou a
pensar que seguiria carreira artística. Ensaiava as músicas com determinação
enquanto o jogo de luzes iluminava todo o seu jardim. Verde. Amarelo. Vermelho.
Ao seu lado estava sempre brilhando uma luz. Apenas uma luz ofuscante e sem
graça. O divertido mesmo era se tornar rainha. De fronte a grande construção
Real, tinha um lago. Quando chovia as águas do lago pareciam querer conversar
com Amada pela janela de seu quarto. Como ela era feliz. Mas lá estava a luz de
novo. Evitando que essa água se juntasse a ela em outras brincadeiras. Amada
queria brigar com a luz, mas não conseguia. Mais uma vez voltava aos ensaios
para cantora. E outra vez. E outra. Várias vezes. Verde. Amarelo. Vermelho. Em
dias de inverno. Adorava o clima frio do castelo. Inúmeras vezes ela fora
impedida pela luz de desfrutar dele. Sentia-se perdida, seguia pelo castelo,
brincando com suas bonecas de escalar as grandes montanhas do reino. A luz não
permitia também. Parecia ser tão chata. Por que não ia embora, simplesmente?
Até que Amada cresceu. Nas noites de inverno
impiedosas, deitada em baixo de uma antiga construção abandonada, observava
pela brecha das telhas a lua brilhando sobre sua cabeça. Não tentava mais
pega-la com as mãos. Apenas se esforçava para afastar do colchão rosa bebê no
qual estava deitada, a água que sem cerimônias adentrava no seu abrigo.
Parecendo não mais querer brincar com ela, e sim, disposta a uma grande
discussão. Relembrava quantos namorados tivera até então. Nenhum que a fizesse
feliz o suficiente. Já não achava mais divertido cantar enquanto recebia
esmolas no sinal todos os dias, mas era obrigação, era necessidade. Ficava
repetindo em pensamento. Verde. Amarelo. Vermelho. As montanhas nas quais
brincava com suas bonecas encontradas nas calçadas, não eram mais tão legais.
Agora elas pareciam querer engoli-la. Vinham cada vez mais perto e assustavam
por pirraça. Não sabia por que conseguia ser tão feliz. Não entendia por que
não sofria. Questionava-se sobre isso somente até a porta se abrir e por ela
entrar uma luz. Nesse momento Amada esquecia tudo. Voltava ao castelo,
sentia-se protegida, saltava da cama rosa, corria pelo quarto espaçoso
iluminado apenas pelo grande lustre. Pulava em direção a luz e gritava:
- Mamãe!
- Mamãe!
Raíza Andrade
Nenhum comentário:
Postar um comentário