sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luz!




Era uma vez uma criança. Amada era o seu nome. Morava em um castelo luxuoso de paredes grandes feitas com pedras esculpidas a mão. Ficava no seu quarto, na cama rosa de princesa. Olhava o teto e admirava o lustre brilhante que se debruçava em cima de sua cabeça. Tentava a todo custo tocá-lo, mas era em vão. Ficava muito no alto. Claro que sonhava. Qual criança não sonha? Queria casar-se com um príncipe e viver feliz para sempre. Queria cuidar dos animais e ajudar os doentes. Levar alegria ao povo do seu reino. Chegou a pensar que seguiria carreira artística. Ensaiava as músicas com determinação enquanto o jogo de luzes iluminava todo o seu jardim. Verde. Amarelo. Vermelho. Ao seu lado estava sempre brilhando uma luz. Apenas uma luz ofuscante e sem graça. O divertido mesmo era se tornar rainha. De fronte a grande construção Real, tinha um lago. Quando chovia as águas do lago pareciam querer conversar com Amada pela janela de seu quarto. Como ela era feliz. Mas lá estava a luz de novo. Evitando que essa água se juntasse a ela em outras brincadeiras. Amada queria brigar com a luz, mas não conseguia. Mais uma vez voltava aos ensaios para cantora. E outra vez. E outra. Várias vezes. Verde. Amarelo. Vermelho. Em dias de inverno. Adorava o clima frio do castelo. Inúmeras vezes ela fora impedida pela luz de desfrutar dele. Sentia-se perdida, seguia pelo castelo, brincando com suas bonecas de escalar as grandes montanhas do reino. A luz não permitia também. Parecia ser tão chata. Por que não ia embora, simplesmente?

Até que Amada cresceu. Nas noites de inverno impiedosas, deitada em baixo de uma antiga construção abandonada, observava pela brecha das telhas a lua brilhando sobre sua cabeça. Não tentava mais pega-la com as mãos. Apenas se esforçava para afastar do colchão rosa bebê no qual estava deitada, a água que sem cerimônias adentrava no seu abrigo. Parecendo não mais querer brincar com ela, e sim, disposta a uma grande discussão. Relembrava quantos namorados tivera até então. Nenhum que a fizesse feliz o suficiente. Já não achava mais divertido cantar enquanto recebia esmolas no sinal todos os dias, mas era obrigação, era necessidade. Ficava repetindo em pensamento. Verde. Amarelo. Vermelho. As montanhas nas quais brincava com suas bonecas encontradas nas calçadas, não eram mais tão legais. Agora elas pareciam querer engoli-la. Vinham cada vez mais perto e assustavam por pirraça. Não sabia por que conseguia ser tão feliz. Não entendia por que não sofria. Questionava-se sobre isso somente até a porta se abrir e por ela entrar uma luz. Nesse momento Amada esquecia tudo. Voltava ao castelo, sentia-se protegida, saltava da cama rosa, corria pelo quarto espaçoso iluminado apenas pelo grande lustre. Pulava em direção a luz e gritava:
- Mamãe!

Raíza Andrade

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