Uma
súbita vontade de abrir os olhos. Sabia que se abrisse, estaria correndo todos
os riscos. A boca seca. Nariz torcido. Pensou contagens infinitas e contou
pensamentos insuficientes. Sem querer, um deslize. Aspirou. Um aroma passou por
suas narinas e invadiu seu cérebro. Mais que rapidamente arrepiou todos os seus
pelos. Suas pálpebras arderam loucas por movimentação. Estava cada vez mais
difícil mantê-las cerradas. Teria Deus uma boa explicação para isso, caso
acreditasse? Quem
dera tivesse se lembrado de tampar as orelhas. Ouviu a voz. Silêncio. De um,
não do outro. Escapando de todo o seu controle, saiu sua voz. Agora sim, um
diálogo. Sem forças, acalmou. Não que tenha sido ruim. Mas viu aí, nesse ensaio
de conversa, o começo da sua derrota. Estava quase perdendo, isso já sabia. Mas
ainda teve esperança. Achou que ao manter os olhos fechados, evitava a sua
total entrega. Sentiu os toques. Pode perceber que mãos deslizavam pelo seu
rosto, formando um rastro quente, quase em chamas, pela pele percorrida. Seu
corpo tremeu. Sua boca suplicou um “não” impossível de ser escutado por meros
mortais. Suas mãos se fecharam contra seu corpo. O toque dos lábios. O desespero
pelo sabor. Nenhuma resistência e a língua sem cerimônias já invadiu a sua. O
arrepio percorreu sua espinha contando ao seu corpo que estava perdido. Não
abriu os olhos. Mas na escuridão por trás das suas pálpebras conseguiu
visualizar chamas. Chamas que dançavam conforme sua língua em outra boca. Fora
vencido. Vencido pelo desejo. A visão era o menor dos seus problemas...
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