segunda-feira, 20 de maio de 2013

A visão era o menor dos seus problemas...


             Uma súbita vontade de abrir os olhos. Sabia que se abrisse, estaria correndo todos os riscos. A boca seca. Nariz torcido. Pensou contagens infinitas e contou pensamentos insuficientes. Sem querer, um deslize. Aspirou. Um aroma passou por suas narinas e invadiu seu cérebro. Mais que rapidamente arrepiou todos os seus pelos. Suas pálpebras arderam loucas por movimentação. Estava cada vez mais difícil mantê-las cerradas. Teria Deus uma boa explicação para isso, caso acreditasse? Quem dera tivesse se lembrado de tampar as orelhas. Ouviu a voz. Silêncio. De um, não do outro. Escapando de todo o seu controle, saiu sua voz. Agora sim, um diálogo. Sem forças, acalmou. Não que tenha sido ruim. Mas viu aí, nesse ensaio de conversa, o começo da sua derrota. Estava quase perdendo, isso já sabia. Mas ainda teve esperança. Achou que ao manter os olhos fechados, evitava a sua total entrega. Sentiu os toques. Pode perceber que mãos deslizavam pelo seu rosto, formando um rastro quente, quase em chamas, pela pele percorrida. Seu corpo tremeu. Sua boca suplicou um “não” impossível de ser escutado por meros mortais. Suas mãos se fecharam contra seu corpo. O toque dos lábios. O desespero pelo sabor. Nenhuma resistência e a língua sem cerimônias já invadiu a sua. O arrepio percorreu sua espinha contando ao seu corpo que estava perdido. Não abriu os olhos. Mas na escuridão por trás das suas pálpebras conseguiu visualizar chamas. Chamas que dançavam conforme sua língua em outra boca. Fora vencido. Vencido pelo desejo. A visão era o menor dos seus problemas...

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