domingo, 13 de maio de 2012

Luz - Parte II


            - Salve-se quem puder. – Gritou um homem ao longe.
                 
            - Corram, corram! – Completaram outras pessoas ao seu redor.

          Ela não moveu um músculo. Muita gente corria para o outro lado e nada fazia de verdade. Apenas dava pra se observar o egoísmo alheio. A vontade de se salvar superava o amor ao próximo. Ela, de onde estava, conseguiu ver pessoas empurrando outras, morro abaixo, só para a garantia de sua própria segurança. Ela viu casais se separarem por ser impossível um e outro escaparem juntos. Ela sentiu dor, tanto amor se dissipando.

Mas algum tempo depois, algo inesperado aconteceu. Ela observou uma mulher correndo na direção contrária. “Para onde vai essa daí?”, pensou em perguntar, depois achou que era melhor descobrir sozinha e seguiu a moça. Quanto mais perigoso ficava, mais desesperada a mulher estava perto de tal perigo. Já tinha visto muito marmanjo grande com medo de tudo, a coragem da mulher chamou mesmo sua atenção.

A doida, como resolveu chamá-la, parecia realmente não ter noção de seus riscos. Era a hora de intervir e leva-la dali. Quando se preparava para arrastar a mulher de lá de dentro, ouviu algo baixinho. E, como se não pudesse ficar mais difícil de entender, a mulher sorriu. Estava ali, em meio ao fogo, em meio ao desabamento. Em uma tragédia. Mas sorriu e seus olhos brilharam. A cena foi tão emocionante que quase não percebeu quando a mulher correu em direção ao som. Quando deu por si e foi atrás, já estava segurando um pequeno pacote. Ao olhar de perto não acreditou no que viu. A doida olhou para o que segurava e disse apenas:

- Está tudo bem agora. A mamãe está aqui com você.

Não soube ao certo explicar se a mulher saiu de lá com a criança ou se ficou lá dentro. O que não saia da sua cabeça era o sorriso sincero de felicidade no meio de tanta coisa ruim acontecendo. A doida teve toda a chance do mundo de se salvar e voltou. Voltou porque sua vida não teria salvação sem sua filha. Buscou em todo seu histórico de amores entre seres humanos e constatou, pela primeira vez, que o mundo não era tão mesquinho. Que nele tinham amores de tamanhos indefiníveis. E os maiores que pode observar, eram exatamente como o que vira naquele dia. De uma mãe para um filho.

Mães são criaturas loucas. Loucas de amor.

Eu te amo, mãe. Obrigada por tudo. Obrigada por estar sempre me salvando mesmo que isso custe a sua própria salvação. E obrigada por simplesmente existir.

Raíza Andrade

Um comentário:

  1. Amei! Apesar de ter sido quase obrigada e também chantageada, ficou lindo! Muito obrigada. Te Amo!

    Sua mãe!

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