segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dia Escuro


       Quando o coração se sente mal, tudo vai mal. Você olha para os lados procurando apoio e tudo que encontra é vazio. Com as mãos suando, o coração acelerado, tenta desesperadamente entender sua vida. E nesse momento, quando tudo desmorona, quando tudo que precisa é alinhado na sua frente, mas totalmente fora do alcance das suas mãos, é nesse momento que vem a angustia, o medo, a confusão. Seu choro é silencioso. Ninguém imagina a sua dor, totalmente mascarada por um meio sorriso. Meio sorriso esse que dói ao ser moldado tão falso, quando sua boca apenas quer tremer em um pranto sincero. O dia está escuro ou é minha vida que está nublada?

Tinha o cigarro, mas perdera o isqueiro.


     Depois de correr, observou o céu fechado. Nublado. Refletindo seu coração. Abriu os braços e acolheu a chuva. Quem sabe lavasse a dor que saia de seus poros. Assim como lavou a sujeira da rua. Gotas caíram em seus olhos, mas não se importou. A chuva veio e foi tão rápido que não deu tempo se afogar. Fora rejeitado até por ela. No chão, apenas a lama. Esta já era tão íntima da sua vida que podia se ver nela. Olhou para o alto até que ficasse tonto. Nem ousaria rezar. Não daria credibilidade a um Deus que o desse ouvidos. Pediu perdão ao meio fio ao sentar-se sobre ele. Leu em um letreiro de neon a palavra FELICIDADE e fechou os olhos como se aquilo ofuscasse sua vista. Tinha o cigarro, mas perdera o isqueiro. Tinha a boca, mas perdera o sorriso. Tinha o coração, mas perdera a vida.

A visão era o menor dos seus problemas...


             Uma súbita vontade de abrir os olhos. Sabia que se abrisse, estaria correndo todos os riscos. A boca seca. Nariz torcido. Pensou contagens infinitas e contou pensamentos insuficientes. Sem querer, um deslize. Aspirou. Um aroma passou por suas narinas e invadiu seu cérebro. Mais que rapidamente arrepiou todos os seus pelos. Suas pálpebras arderam loucas por movimentação. Estava cada vez mais difícil mantê-las cerradas. Teria Deus uma boa explicação para isso, caso acreditasse? Quem dera tivesse se lembrado de tampar as orelhas. Ouviu a voz. Silêncio. De um, não do outro. Escapando de todo o seu controle, saiu sua voz. Agora sim, um diálogo. Sem forças, acalmou. Não que tenha sido ruim. Mas viu aí, nesse ensaio de conversa, o começo da sua derrota. Estava quase perdendo, isso já sabia. Mas ainda teve esperança. Achou que ao manter os olhos fechados, evitava a sua total entrega. Sentiu os toques. Pode perceber que mãos deslizavam pelo seu rosto, formando um rastro quente, quase em chamas, pela pele percorrida. Seu corpo tremeu. Sua boca suplicou um “não” impossível de ser escutado por meros mortais. Suas mãos se fecharam contra seu corpo. O toque dos lábios. O desespero pelo sabor. Nenhuma resistência e a língua sem cerimônias já invadiu a sua. O arrepio percorreu sua espinha contando ao seu corpo que estava perdido. Não abriu os olhos. Mas na escuridão por trás das suas pálpebras conseguiu visualizar chamas. Chamas que dançavam conforme sua língua em outra boca. Fora vencido. Vencido pelo desejo. A visão era o menor dos seus problemas...