domingo, 29 de abril de 2012

Os Sábios são os Irracionais...

Era uma vez uma mosca. Ao nascer ela foi avisada só ter um mês de vida. Durante sua vida curta ela fez tudo que pode, ao invés de se deixar abater pela sua futura morte precoce. Faltando algumas poucas horas para o seu trágico destino, a mosquinha, já uma idosa, foi procurada por um dos seus filhos:

- Mãe, como a senhora consegue estar feliz sabendo que morrerá daqui a pouco?

- Meu filho, eu estou contente porque estou realizada. Fiz tudo o que queria na minha vida.

- Mas como a senhora conseguiu sabendo que tinha um prazo para viver?

- Ah jovem. Para tudo se tem um prazo. O melhor que você faz é aproveita-lo sabia?

- Eu fico meio triste às vezes por saber que morrerei rápido. Olhe os humanos, eles vivem tanto, queria ser como eles.

- Observe-os, querido. Eles desde o nascimento, como nós, têm um prazo de validade. Umas vezes mais curtos e outras vezes mais longos. Mas vivem sabendo que um dia não viverão mais. E observe melhor. Eles não aproveitam esse tempo, por isso vivem tão infelizes. Simplesmente não aproveitam o prazo que tem. Eles desde cedo reclamam da vida. Imagina se nós fizéssemos isso com o tempo que temos? Não daria nem para ficar deprimido.
 
- É verdade, mamãe. Melhor eu aproveitar muito bem meu tempo, não é?

- Sim, só se vive uma vez. Só temos esse prazo. Devemos aproveita-lo. Os humanos algum dia entenderão isso. Você ainda quer ser como eles?

- Não, não. Acho que o tempo que eu tenho é mais que suficiente para me divertir. Mas ainda sobra um pouco para eu sentir pena deles. Deve ser muito triste perder tempo lamentando o que se tem de mais importante não é mesmo?

Raíza  Andrade

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luz!




Era uma vez uma criança. Amada era o seu nome. Morava em um castelo luxuoso de paredes grandes feitas com pedras esculpidas a mão. Ficava no seu quarto, na cama rosa de princesa. Olhava o teto e admirava o lustre brilhante que se debruçava em cima de sua cabeça. Tentava a todo custo tocá-lo, mas era em vão. Ficava muito no alto. Claro que sonhava. Qual criança não sonha? Queria casar-se com um príncipe e viver feliz para sempre. Queria cuidar dos animais e ajudar os doentes. Levar alegria ao povo do seu reino. Chegou a pensar que seguiria carreira artística. Ensaiava as músicas com determinação enquanto o jogo de luzes iluminava todo o seu jardim. Verde. Amarelo. Vermelho. Ao seu lado estava sempre brilhando uma luz. Apenas uma luz ofuscante e sem graça. O divertido mesmo era se tornar rainha. De fronte a grande construção Real, tinha um lago. Quando chovia as águas do lago pareciam querer conversar com Amada pela janela de seu quarto. Como ela era feliz. Mas lá estava a luz de novo. Evitando que essa água se juntasse a ela em outras brincadeiras. Amada queria brigar com a luz, mas não conseguia. Mais uma vez voltava aos ensaios para cantora. E outra vez. E outra. Várias vezes. Verde. Amarelo. Vermelho. Em dias de inverno. Adorava o clima frio do castelo. Inúmeras vezes ela fora impedida pela luz de desfrutar dele. Sentia-se perdida, seguia pelo castelo, brincando com suas bonecas de escalar as grandes montanhas do reino. A luz não permitia também. Parecia ser tão chata. Por que não ia embora, simplesmente?

Até que Amada cresceu. Nas noites de inverno impiedosas, deitada em baixo de uma antiga construção abandonada, observava pela brecha das telhas a lua brilhando sobre sua cabeça. Não tentava mais pega-la com as mãos. Apenas se esforçava para afastar do colchão rosa bebê no qual estava deitada, a água que sem cerimônias adentrava no seu abrigo. Parecendo não mais querer brincar com ela, e sim, disposta a uma grande discussão. Relembrava quantos namorados tivera até então. Nenhum que a fizesse feliz o suficiente. Já não achava mais divertido cantar enquanto recebia esmolas no sinal todos os dias, mas era obrigação, era necessidade. Ficava repetindo em pensamento. Verde. Amarelo. Vermelho. As montanhas nas quais brincava com suas bonecas encontradas nas calçadas, não eram mais tão legais. Agora elas pareciam querer engoli-la. Vinham cada vez mais perto e assustavam por pirraça. Não sabia por que conseguia ser tão feliz. Não entendia por que não sofria. Questionava-se sobre isso somente até a porta se abrir e por ela entrar uma luz. Nesse momento Amada esquecia tudo. Voltava ao castelo, sentia-se protegida, saltava da cama rosa, corria pelo quarto espaçoso iluminado apenas pelo grande lustre. Pulava em direção a luz e gritava:
- Mamãe!

Raíza Andrade

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ponto de Vista!


Quanto vale você? Quanto eu estou valendo agora? Será que algum dia eu poderia saber? Sei lá, talvez um dia eu queira me vender pra alguém. Quem faz doação é caridade e produto de graça é produto sem valor. Calma, muita calma. Eu não quero me vender agora. Quero apenas estimar quanto eu lucraria vendendo a mim mesma, afinal, estamos em um mundo capitalista. Se tudo gera lucro, por que eu não? Mas não encontrei especialista no assunto para avaliar o meu valor. Aconselharam-me a me colocar em um leilão, caso precise, em que cada interessado faz a sua oferta. Seria interessante, eu pensei. Teria muita gente que avaliaria os meus prós e os meus contras. Muitos contras baixariam a oferta e muitos prós a aumentariam. Simples assim.

Espera... O que é um “contra” pra você? É o mesmo que para sua mãe? É o mesmo que para seu irmão? Se não, não, você não me avalia. Vocês são muito confusos. Eu sou muito confusa. Tentei me colocar junto aos meus pais escolhendo as minhas qualidades e os meus defeitos. Não funcionou nem um pouco, minha mãe achava que eu era boa nisso, meu pai naquilo. Na verdade, nos defeitos eles quase concordaram em todos. Mas eu não e, talvez, nem minha avó ou meu tio. Enfim, ia ser impossível eu me por em leilão. Porque eu cheguei à conclusão que ninguém é bom o bastante para me avaliar mesmo. Nem eu, quando digo que a voz é uma qualidade minha e é um defeito seu, por exemplo. Ou quando o meu jeito de me vestir é bonito e o seu é feio. Aposto a vida como você pensa o contrário. Então quem somos nós para nos leiloar afinal?

Isso significa que não temos um valor, eu e você? Jamais. Significa exatamente o contrário. Nós temos valores demais. Sua vida tem tantos valores excepcionais que eu, no meu único ponto de vista, não consigo enxergar todos. Vejo um aqui, outro ali, mas ignoro uma grande parte. Para começarmos a enxergar todos os valores das pessoas existe uma solução tão simples. Nós precisamos, apenas, aumentar nossos pontos de vista. Nossa mente é capaz de criar infinitos e nós às vezes usamos só um, como uma viseira em um cavalo, olhamos apenas para frente e esquecemos que existe um mundo inteiro ao nosso redor.

Vamos abrir nossa mente, perceber o valor das pessoas. Vamos criar pontos de vista, usar a imaginação. Seguir em frente aceitando que ao seu redor existem outros caminhos é a solução para se valorizar valorizando também quem pensa de outra forma. Então, hoje, amanhã e sempre, olhe para os lados, mesmo que vá para frente.

Raíza Andrade.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Prejudice is the child of ignorance!

Ei, doutor, diz pra mim
De que raça você é
Ei, senhor, fala pra mim
Em qual religião você tem fé

O que lhe faz nessa vida melhor que eu, doutor?
O salário, o bairro que você mora, ou apenas a cor?
Eu não mato, eu não assalto, mas eu sou negão
Só por isso eu preciso ser o escravo dessa nação?
Eu não mato, eu não assalto, mas eu sou ateu
Só tem liberdade de falar quem crê em Deus?

Filha, não olha pra ele, ele é marginal
Ele fuma, ouve rock e usa argola
Filha, essa tua amiga não é legal
Ela namora outras meninas na escola
Pai, eu te pergunto, o que é normal?
Viver sua vida ou viver numa gaiola?

Ei, doutor, diz pra mim
De que raça você é.
Ei, senhor, fala pra mim
Em qual religião você tem fé

Não me espera em casa no almoço para a oração
Eu estarei dormindo ou compondo outra canção
Não espera que eu venha algum dia a concordar
Todo esse preconceito é só desculpa para brigar
Torça o nariz quando passar por uma favela
Mas não humilhe jamais alguém que vem dela

Sabe aquele cara que você viu no sinal?
Ele tem filho, tem esposa e não tem paz
Pode ser que ele se drogue afinal
Mas pela imagem não o julgue jamais
Quanta noticia ruim tem no jornal
A maioria delas você mesmo que faz

Ei, doutor, diz pra mim
De que raça você é.
Ei, senhor, fala pra mim
Em qual religião você tem fé


Raíza Andrade.